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Mergulhos nos Livros do Pedro

Mergulhos nos Livros do Pedro

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja | Opinião

Pedro, 16.08.20

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Quem já leu Afonso Cruz, sabe que é constantemente brindado com recursos estilísticos recorrentes na mesma frase ou frases e/ou ao longo do texto. É algo intrínseco a este autor.

Para quem ainda não leu nenhum dos seus livros e vai começar, deve ter em consideração este factor, pois na verdade é um livro onde se faz analogias, referências e onde, em suma, se utilizam bastantes recursos estilísticos para se explicar a história. Certas vezes com ironia outra vezes de forma nua e crua. Podia dizer-se que se aplica a regra do 8 ao 80.

Para mim o facto de ser extravagante, diferente e exagerado torna a história uma colheita de loucura das boas!!!

Ao mesmo tempo, este livro, utiliza ironia, com tom de crítica, o que nos faz pensar nas mensagens que a história e o autor nos estão a transmitir.

Assim, o leitor deve ter em consideração estes aspectos antes de o adquirir.

Sobre o livro:

Em Jesus Cristo Bebia Cerveja, podemos dizer que existem 5 personagens principais que fazem esta história:  Antónia (Avó de Rosa), Rosa (neta de Antónia), o pastor Ari (grande amigo de Rosa), o Professor Borja e Miss Whitemore (chamada a Inglesa, e de certa forma algo importante na história).

Na sua essência, somos introduzidos pela história de Rosa, neta de Antónia que está responsável por cuidar de Antónia e onde, ao longo da história, somos informados quer da vida de Rosa quer da abordagem de outras personagens.

A história foca-se em Antónia, mulher com uma certa idade, mas que tem um único e último desejo. Ir um dia à terra prometida (Jerusalém) antes de falecer.É aqui que Rosa e associados terão um papel fundamental e realizar este desejo.

Para o conseguir e com ajuda de outros intervenientes e do professor Borja escritor e habituado a transcrever histórias de ficção que reflectem a realidade, decide transformar a realidade em ficção, uma ficção no seu sentido, uma falácia como num espectáculo de magia onde a maior parte dos adereços do espectáculo (não) estão visíveis a olho nu.

É aqui que Afonso Cruz consegue destacar-se e dar asas à imaginação. É aqui que se consegue ver o que é um escritor e o que é realmente um grande escritor.

"-Tudo o que ela quer é ir À Terra Santa- chora Rosa- é só isso que ela quer. Ver Jerusalém e depois morrer.

-É difícil. Como é que a fazemos chegar lá?

-É impossível.

(...)

-Mas, tal como é possível não pisar a merda, é possível dar valor ao impossível. O que há a fazer é leva-la a Jerusalém.

- Impossível. Nós somos pobres.

- Claro, como quase toda a gente.

- Trabalhamos, mas continuamos na miséria.

-Evidentemente. Se o trabalho desse dinheiro, os pobres seriam ricos. Mas não é disso que falo".

(...)

"-Se nós não conseguimos chegar a Jerusalém, temos que fazer com que Jerusalém chegue até nós"

Uma descrição de peripécias e sobressaltos de um enredo que dá uma reviravolta muito grande no final, que nos mostra que quando algo é impossível e caricato, pode ser idealizado e tornado real.

Em suma:

Rosa e Borja numa aldeia alentejana

Cuidam da avó Antónia, a mulher puritana

Antónia esta, que mal consegue caminhar

Surda e cansada, sente um desconforto, um mau estar.

 

Mas Antónia está certo do último desejo da sua vida

Ir a Jerusalém, ir à terra prometida

Sem dinheiro, Rosa e Borja terão que pensar

Num espectáculo de disfarces, para a Jerusalém a avó levar

 

Mas de tantas certezas que por lá existia

Quiçá Antónia não sairá do seu lugar, sem comprometer a profecia.

 

Tendo em conta a construção, os cenários, as peripécias, os recursos estilísticos e a história em si, dou a este livro 4 estrelas.

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